Daniela Menti

Coreia do Norte é um país que eu gostaria de conhecer, mesmo sendo um dos mais fechados do mundo, com a zona militarizada mais complicada que existe. O turismo pra Coreia do Norte veio crescendo nos últimos anos, inclusive com vários brasileiros indo pra lá. Como mostra essa reportagem.

Uma coisa é turistar por lá, com um guia te vigiando a todo momento, indicando o que é possível ou não de fotografar, outra coisa é acompanhar o relato de alguém que vive numa das ditaduras mais terríveis da atualidade.

Esta é a proposta do repórter norte-americano Blaine Harden ao escrever “Fuga do Campo 14 – A dramática jornada de um prisioneiro da Coréia do Norte rumo à liberdade no ocidente”. Blaine Harden já foi colaborador da revista The Economist, e do The Washington Post em Tóquio. Numa brincadeira do destino, enquanto tomava café num restaurante em alguma cidadezinha na China, ele esbarra com Shin Dong-hyuk.

Fuga do Campo 14 – narra a infância e vida de Shin Dong-hiuk, nascido e criado no campo de trabalhos forçados, e até a publicação do livro, ele foi a única pessoa com este perfil que conseguiu escapar com vida dos horrores deste lugar. Shin Don-hiuk passou 23 anos de sua vida confinado trabalhando sob severas punições, torturas e os mais perversos atos que o ser humano é capaz. Pelos seus relatos, o Campo 14, parece ser mil vezes pior do que os modelos desenvolvidos pelos Nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Seus pais foram presos na juventude, por serem considerados inimigos políticos, e Shin acaba nascendo tempos depois na prisão. Quem nasce no Campo 14, está sujeito a uma condenação perpétua para sanar os delitos dos antepassados. As crianças são doutrinadas física e psicologicamente a sentirem vergonha de seu sangue impuro, sendo impossível sair de lá.

Shin é a exceção. Ele narra os horrores de sua infância, mas o que mais me deixou emocionada com o livro, é o fato de que ele considerava algo normal viver naquele ambiente, fato ocorrido pela falta de contato com o mundo exterior. Shin carrega e cicatrizes de torturas e as de uma infância comprometida pelas cercas elétricas de um campo de concentração.

São relatos muito fortes que mexeram comigo ao longo da leitura, a fome é um dos mais terríveis. As crianças de sua turma eram fadadas a procurar grãos de milho nas fezes de animais para se alimentar. Sua mãe o espancava constantemente por disputa de comida, bem como seu irmão. Shin passa por atrocidades ricamente detalhadas que eu prendia a respiração só de imaginar. Depois de perder toda a sua dignidade ele ainda foi obrigado a assistir o fuzilamento de sua mãe.

A sensibilidade de Blaine ao transcrever sua narrativa, junto a dados políticos e geográficos do país é muito forte. O Campo 14 é apenas um deles num complexo de dezenas. No final do livro, o autor traz fotos de satélites disponíveis no Google Earth e mostra como a construção de novos campos como este foi evoluindo nos últimos anos.

Shin conta como era a vida nas salas de aula, e as diversas sessões de autocritica que eram submetidos todas as noites. Ele descreve como as muitas mulheres e meninas são estupradas regularmente pelos guardas em troca de algum punhado de arroz, ou mesmo para amenizar os seus castigos. Se alguma mulher engravida no campo devido a um estupro, tanto a mãe quanto a criança sumiam no dia após o parto.

Shin vê a oportunidade de escapar junto com um amigo, mas um acidente na cerca elétrica faz com que o outro moço morra eletrocutado, e Shin utiliza seu cadáver para neutralizar a energia dos fios e assim vagar pelas montanhas nevadas do país, descalço com roupas esfarrapadas, pés sangrando, furados por pregos.

Quando você acha que fugir do Campo foi o melhor para o jovem, você descobre que as pessoas do lado de fora do campo são tão ruins quanto os guardas. Shin, depois de caminhar por dias, e vagar clandestinamente e trens, consegue um serviço de cuidador de porcos na casa de um norte-coreano, que o paga menos de 30 centavos de dólar por dia. Quando ele chega na China, depois de subornar todos os guardas da fronteira com cigarros, bolachas e bebidas roubadas, ele se depara com a barreira linguística e cultural.

Neste momento do livro, sentimos com Shin é um deslocado. Ele não consegue se comunicar e não consegue emprego em lugar algum. Decide então ir para a Coréia do Sul com a ajuda de Blaine, mas a situação acaba piorando novamente pela barreira linguística, cultural e social. Ele é inserido numa república de desertores norte-coreanos em Seoul. Os efeitos do estresse pós traumático começam a aparecer levando-o a uma profunda depressão.

O autor expõe a visão da Coréia do Sul em relação a Coréia do Norte, dando a entender que o sul não tem imediato interesse numa libertação da Coréia do Norte para não receber novos imigrantes. Os Estados Unidos também têm conhecimento da situação do país mas se isentam de agir por receio às retaliações nucleares. Outros países também não veem vantagem em interferir na questão política do país pelos mesmos motivos, e também pelo fato da Coréia do Norte não possuir terras boas para mineração, combustíveis ou mesmo uma agricultura favorável.

Este foi um livro que eu li muito rápido e senti mais raiva de ver o tratamento que Shin recebe no “mundo ocidental” do que dentro do próprio Campo 14. Eu recomendo este livro para todo mundo que queira conhecer a situação do país, pois o livro traz diversos fatos históricos a problemas atuais, como a importação da cultura norte americana através de DVDs e CDs com filmes, músicas e clipes, que são passíveis de prisão se pegos. Para finalizar, Shin traz desenhos de como era sua infância no campo 14.

Fuga do Campo 14, foi publicado originalmente em 2012, em inglês, pela Editora Penguin Books. A tradução é de Maria Luiza  X. a de Borges, pela Editora Intrínsceca.  O livro está disponível na Amazon e na Saraiva.

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