Daniela Menti

Eu demorei pra caramba para ler esse livro, e cheguei a desistir umas 3 vezes, mas voltei atrás.

Achei a escrita pesada, num tom poético o qual não estou acostumada a ler, mas depois da segunda parte a leitura fluiu. Achei tão difícil de compreender os pensamentos da personagem Halla que li outras resenhas e vi o quão profundo foi essa leitura.

Skaftafellsjökull (2016)

A Desumanização tem como cenário um dos meus países amadinhos <3 A Islândia. Entre os fiordes e as montanhas geladas do país vivem Halla (a menos morta) e sua irmã gêmea Sigridur (a morta).

O livro inicia com Halla no enterro de sua irmã Sigridur, onde ela divaga sobre o dia em que lá crescerá uma árvore de Sigridur. A personagem tem 12 anos mas é difícil saber se os seus pensamentos são ingênuos ou dotados de grande sabedoria.

O discurso de Halla sobre o sentimento de luto ao redor de sua irmã perpassa por toda a história e são lindos. Ela se considera como a menina menos morta já que Sigridur é como se fosse o seu espelho e está morta. Muitas vezes ela pede para que seu pai corte seus bracinhos e pernas, pois está crescendo, mas sabe que sua irmã deve manter o mesmo corpo de criança embaixo da terra. Muitas passagens de Halla sobre sua irmã te dão um aperto no coração e ao mesmo tempo um sentimento de ternura que é difícil explicar.

No momento em que temos o discurso belíssimo e bem observado de Halla com um toque de pureza infantil, a contraponto vemos o papel da sociedade como verdadeiro vilão do livro. Halla passa pelo processo de desumanização ao ser chamada de “menos morta” e se vê obrigada a viver com a mãe instável a ponto de cortar um de seus mamilos fora após ser violentada pelo velho louco Einar.

Islândia

Abandonada no frio de seu luto, enquanto a mãe explode em agonia e ódio, e o pai observa resignado, ela se vê grávida, fruto do estupro cometido pelo homem que a irmã a fez prometer que não se aproximaria. Perde a criança no final da gestação tal qual uma ovelha imunda como diz sua mãe, e com isso a tristeza da morte faz nascer a esperança de que o bebê falecido vá fazer companhia para a irmã no outro lado.

Aos poucos, Halla aprende que algo só pode existir caso haja outra pessoa para reconhecer esta existência. Mesmo tentando a todo custo manter vívida a imagem da gêmea morta, para que ela continue a existir em sua memória, aos poucos ela vai esquecendo suas feições. Halla aprende que é preciso cortar a ligação com sua irmã falecida, e só se tornará algo quando deixar que a sombra da irmã a molde.  

Na segunda parte do livro, a personagem da tia intolerante aparece. Esta queima livros e os poemas que o seu querido pai escreve. Ela esbraveja discursos de ódio e teorias conspiratórias (parece um almoço com a minha família) é chamada de mulher-urso por Halla. Esta personagem tem papel importante no desvendar de alguns mistérios não explicados no início da narrativa.


“Repeti: a morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco.” (P.13)


“O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (P.40)

No final, o personagem Einar que violenta Halla, tem sua deficiência mental explicada por uma tragédia que acontecera quando criança. Todos os personagens são costurados na trama através de seus infortúnios.  Os anos transcorrem, e não sabemos ao certo dizer em que época a história se passa. Não tem como saber se a narrativa é contada por Halla mais velha, ou narrada com o passar do tempo isso torna mais angustiante ainda a leitura. O sofrimento do luto, a solidão e frieza da mãe, a subalternidade do pai e a ignorância da tia se misturam com a paisagem gelada e inóspita da Islândia. A escrita me fez ficar com frio algumas vezes, e por fim, o tom melancólico e o abatido que Valter Hugo Mãe utiliza nos personagens faz com que você realmente repense sua vida a cada parágrafo lido.


“Estava com doze anos, faltava pouco para fazer treze, não me via como uma criança. Era uma mulher tão completa quanto apenas a tristeza as sabia fazer.” (P.89)

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